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Quando a minha filha me solicitou que
escrevesse o meu depoimento de vitória sobre "passar no concurso"
fiquei pensativa e recordei dos inúmeros heróis anônimos que como eu passaram
num concurso público a despeito de todas as adversidades que enfrentaram.
Muitas vezes só nos lembramos
dos grandes feitos e dos grandes heróis, porém, nos esquecemos dos heróis
do cotidiano, que realizam feitos que mudam as suas vidas e das pessoas
que o cercam. Para esses inúmeros heróis que enfrentam o cotidiano,
batalhas diárias, com coragem, sem esmorecer, até atingir a vitória, a
esses heróis, dedico esse depoimento. Entre essas pessoas estão os meus
filhos.
Em 1980 eu estava casada
e tinha dois filhos pequenos, de 5 e 3 anos. Pela manhã ficava em casa
e a tarde frequentava a faculdade de Geografia para concluir o bacharelado.
Resolvi, então, fazer o concurso para
auditor fiscal da Receita Federal porque o meu marido na época era auditor
da Receita.
Numa determinada manhã inscrevi-me num
cursinho para facilitar o estudo e direcioná-lo adequadamente. Nesse mesmo
dia, à tarde, a secretária do cursinho me telefonou dizendo que não haviam
aceito a minha inscrição porque eu tinha graduação em Geografia e eles
estavam formando uma turma específica de Contabilidade e Direito. Fiquei
arrasada. Senti-me derrotada. Nem pagando me queriam no cursinho porque
achavam que as minhas chances eram mínimas.
Reagi. Levantei a cabeça e afirmei:
Pois, agora eu vou passar!
A partir daquele dia, todos os dias,
eu estudava das 22 horas as 02 horas. Nesse horário as crianças já
estavam dormindo e a casa estava silenciosa.
Nos fins de semana, meu marido levava
as crianças para passear e eu reforçava os estudos. Estudei
sozinha com apostilas e livros. De vez em quando convidava
uma colega para estudar comigo. Venci as barreiras de conteúdo porque a
minha formação era Geografia e tive que estudar muitas matérias que nunca
tinha visto como Contabilidade, Direito e Economia.
Passei no concurso
de 1980, nessa época se chamava Auditor do Tesouro Nacional-AFTN.
O que parecia impossível, aconteceu.
"O que era impossível hoje é mais que um troféu, uma prova que Deus
é fiel".
Cecília Marinelli, auditora fiscal da Receita Federal do Brasil, concursada desde 1988.
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Comentado por SETIMARTE on 2009-09-30 02:50:28 Legal, Cecília, mas, pelo que entendi do seu relato, você podia fazer uma faculdade e estudar para o concurso porque não precisava trabalhar fora. Só que 99% dos brasileiros, como eu, precisam trabalhar fora, cuidar da casa (e, às vezes, também dos filhos) e achar uma brecha de tempo para estudar. Sem falar que, hoje, a concorrência é muitíssimo maior, pois, no seu tempo, trabalhar no serviço público e numa razoável empresa privada dava no mesmo (ambos pagavam bons salários, davam relativa estabilidade e tinham excelente leque de benefícios, como eu mesma comprovei, visto entrei no mercado na década de 80). Hoje, a disputa é de sangue, pois não há empregos suficientes na iniciativa privada para todos os cidadãos na ativa (e os poucos que existem são vagas péssimas, verdadeiros subempregos, mesmo para quem tem nível superior). Tanto é que muitas vagas estão sendo disputadas na base dos títulos, ou seja, a colocação é de quem tem mestrado e doutorado, mesmo que não exista essa exigência prévia para a maioria dos cargos. |
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