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Atenção: As questões de números 1 a 10 referem-se ao texto que segue.
Um sonho de simplicidade
Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?
Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor, me surpreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.
Mas, para instaurar uma vida mais simples e sábia, seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo; tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma sossegada e limpa.
Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. É apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, de um número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.
(Rubem Braga, 200 crônicas escolhidas)
1 - Em seu sonho de simplicidade, o cronista Rubem Braga
idealiza sobretudo
a) uma depuração maior no seu estilo de escrever,
marcado por excessivo refinamento.
b) as pequenas necessidades da rotina, que cada um
de nós cria inconscientemente.
c) uma relação mais direta e vital do homem com os
demais elementos da natureza.
d) o aperfeiçoamento do espírito, por meio de reflexões
constantes e disciplinadas.
e) a paixão ingênua que pode nascer com a voz de
uma mulher na penumbra.
Práticas e convenções
Os direitos e deveres estabelecem-se primeiro na
prática, depois por convenção. O senso do que é justo, do que é
socialmente desejável, mesmo do que é moral, firma-se em
valores culturais, cujo acatamento coletivo muitas vezes
demanda as prescrições de um código. Ocorre que a
legitimidade desse código pode vir a se tornar mera e vazia
convenção, quando seus postulados já não refletem a evolução
dos fatos da cultura. As revisões dos dispositivos da lei fazem-
se, por vezes, com tal atraso, que apenas retiram de um texto
caduco aquilo que as pessoas há muito removeram de suas
práticas sociais.
As recentes alterações no Código Civil brasileiro,
elogiáveis em tantos aspectos, estão longe de representar
algum avanço mais profundo, refletindo, apenas hoje, valores
que, na prática social, firmaram-se há décadas. No que diz
respeito ao papel da mulher na modernidade, essas alterações
não fazem mais que formalizar (quase diria: envergonhada-
mente) direitos conquistados ao longo das lutas feministas,
desde que a mulher tomou para si a tarefa que lhe cabia:
demarcar com clareza e soberania o território de sua atuação,
território que há muito é seu, não por convenção, mas pela ação
cotidiana que se fez histórica.
(Diógenes Torquato, inédito)
11 - Segundo o texto, as práticas sociais e o estabelecimento
dos textos legais
a) ocorrem simultaneamente, com influências recípro-
cas.
b) constituem, respectivamente, o plano das
convenções e o plano da vida cultural.
c) ocorrem simultaneamente, sem influência de um em
outro.
d) constituem, respectivamente, o plano da vida cultural
e o plano das convenções.
e) constituem, respectivamente, o plano dos valores
ideais e o plano dos valores históricos.
13 - Para preencher de modo correto a lacuna da frase, o
verbo indicado entre parênteses deverá adotar uma forma
do plural em:
a) As normas que num código legal se (estipular)
devem acompanhar a prática das ações sociais.
c) Não nos (dizer) respeito definir o que é ou não
é legítimo, se não distinguimos entre o que é e o que
não é um fato social.
d) Se dos postulados dos códigos (nascer) todo
direito, a justiça humana seria uma simples
convenção.
e) Ao longo das lutas feministas tanta coisa se
(conquistar) que muitos dispositivos legais se
tornaram imediatamente obsoletos.
14 - Os tempos verbais estão adequadamente articulados na
frase:
a) As mulheres muito lutariam para que possam ter
seus direitos respeitados.
b) Esses valores se instituíram na prática, e só muito
depois houveram sido formalizados.
c) Firma-se o senso do que é justo à proporção que
passassem os anos.
d) São de se elogiar as alterações apresentadas pelo
Código que recentemente se lançou.
e) Coube às mulheres lutar para que sejam
reconhecidos os direitos que lhes negássemos.
15 - A expressão de cujo preenche corretamente a lacuna da
frase:
a) É um processo de luta sucesso muitas se
empenham.
b) As novidades do novo Código Civil, muito se
falou, são um tanto tímidas.
c) As lutas feministas, sucesso ninguém mais
duvida, travaram-se ao longo de muitas décadas.
d) A grande tarefa do legislador, esforço devemos
reconhecer, é acompanhar a evolução dos fatos da
cultura.
e) As práticas sociais, valor nenhum outro deveria
se sobrepor, são por vezes ignoradas.
17 - A única frase corretamente construída é:
a) Espero que Vossa Excelência aprecieis o novo
código.
b) Se o senhor preferir, aguardarei que termines a
leitura integral do código.
c) Se passares os olhos pela nova redação, poderá ver
que são pequenas as alterações.
d) Conserva contigo esse exemplar do novo código;
não vá perdê-lo, por favor.
e) Se Vossa Senhoria não fizer objeção, levo-lhe ainda
hoje a nova redação do código.
18 - Está inteiramente clara e correta a redação da frase:
a) É na constância da prática que os valores culturais
se retificam, confirmando-se assim como valores
onde sua legitimidade torna-se indiscutível.
b) Embora elogiáveis sobre muitos aspectos, as alte-
rações do novo código não obtiveram mais do que
buscar acompanhar fatos há muito consolidados.
c) O autor do texto ao tratar de práticas e convenções
está referindo às ações nas quais cujos seus valores
nem sempre são imediatamente acompanhados pela
legislação vigorosa.
d) A demarcação de um campo de direitos não
prescinde de muita luta, tal como pode observar
quem venha acompanhando o processo das
batalhas feministas.
e) Não obstante haja quem o discorde, muitos
acreditam que o que é justo decorre do texto legal,
não se passando o mesmo com a prática das
ações.
19 - É preciso corrigir a redação da seguinte frase:
a) Li o novo código e, no fundamental, nada tenho a lhe
opor.
b) É louvável, reconheça-se, a coragem com que as
feministas pioneiras se lançaram à luta.
c) Os povos primitivos orientam-se por uma tradição de
valores mais precisos e mais permanentes que os
nossos.
d) Há sempre quem discuta as leis; mais difícil é haver
quem discuta os valores já estabelecidos na prática
e) Se contra fatos não há argumentos, esta é uma
afirmação autoritária, na qual não se deve recorrer.
20 - A necessidade ou não do sinal de crase está inteiramente
observada na frase:
a) Deve-se à luta das feministas o respeito aos direitos
que cabem também às outras parcelas de injustiça-
dos que integram a nossa sociedade.
b) Encontra-se a disposição dos interessados a nova
edição do Código Civil, à qual, aliás, já se fizeram
objeções à torto e à direito.
c) À vista do que dispõe o novo código, não caberá à
ninguém a condição "natural" de cabeça de casal, à
qual, até então, se reservava para o homem.
d) Pode ser que à curto prazo o novo código esteja
obsoleto em vários pontos, à exemplo do que
ocorreu com o antigo.
e) Não se impute à uma mulher a culpa de não ter
lutado por seus direitos; todas as pressões sociais
sempre a conduziram àquela "virtuosa" resignação.
Gabarito desta Prova
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